Em desconstrução

Aline Cury Zampieri | De São Paulo
Valor Econômico - 05/06/2012

As empresas de construção civil estão sofrendo com as dores do crescimento. Animadas com as perspectivas de expansão da economia brasileira, as companhias se endividaram e correram para lançar projetos. Agora, várias enfrentam dificuldades para executar o que planejaram e se veem às voltas com estouros de orçamento. Segundo analistas, esses são alguns dos motivos que fazem com que as cotações de algumas ações do setor listadas no Índice Bovespa estejam próximas de suas mínimas históricas.

Levantamento feito pelo Valor mostra que, no começo do mês, quatro das seis ações que estão no índice se aproximaram de seus valores mínimos: Rossi Residencial, PDG Realty, Brookfield e Gafisa. Esta última, por exemplo, chegou ao piso no dia 1º de junho, cotada a R$ 2,40. Na máxima, em maio de 2008, chegou a valer R$ 18,29. “Algumas empresas estão com situações financeiras preocupantes, pois se perderam num crescimento forte das operações, e puxam o setor como um todo”, diz o analista de construção da SLW Corretora, Erick Scott Hood.

Conforme os especialistas, as boas perspectivas da economia brasileira levaram empresas do setor a um excesso de empolgação nos idos de 2005 e 2006. “Elas cresceram demais, fizeram lançamentos demais e algumas acabaram perdendo a mão do negócio”, continua Hood. Vale lembrar que muitas companhias chegaram à bolsa por volta de 2007 e foram naturalmente pressionadas pelos novos investidores a acelerar projetos que pudessem gerar resultados.

Com isso, fica no mercado uma dúvida geral sobre a execução dos projetos das construtoras. “Os balanços do primeiro trimestre vieram bem abaixo das expectativas dos analistas e os investidores reagiram mal, punindo as ações em bolsa”, comenta o analista de construção do banco HSBC, Felipe Rodrigues. “Há muitas dúvidas sobre se as empresas estão efetivamente conseguindo executar suas obras de maneira correta e há vários estouros de orçamento. A crise deixou de ser pontual para se transformar num risco setorial”, acredita.

Essa deterioração de resultados acaba se refletindo numa piora na perspectiva do mercado em relação às empresas. “É difícil dizer se a queda das ações é exagerada. A piora reflete um momento vendedor grande”, afirma Rodrigues.

O analista de construção da BES Securities, Eduardo Silveira, diz que os estouros de orçamento vistos entre janeiro e março fizeram com que os especialistas refizessem suas projeções e o setor passasse por um rebaixamento geral. “Depois dos balanços do primeiro trimestre, ficou claro que muitos números foram superestimados pelas empresas”, afirma Silveira. “Um pouco dessa situação é culpa da expansão iniciada em 2007, quando companhias foram para segmentos que não conheciam.”

Todos esses problemas são potencializados, lembra ele, pela pressão grande de venda que vem acontecendo na própria Bovespa, em função do mau momento internacional. Apenas em maio, o Ibovespa perdeu 11,9%, com saída relevante de capital externo. Em maio, o saldo estrangeiro foi negativo em R$ 2,338 bilhões. “O investidor estrangeiro tem fatias elevadas do segmento de construção. Além disso, o beta [medida de correlação com o índice] das empresas do setor é alto, o que faz com que elas oscilem mais.”

Silveira lembra ainda que Rossi e Brookfield saíram do índice MSCI Brazil na carteira que começou a valer em 1º de junho. Essa retirada provocou vendas mais fortes das ações na semana que antecedeu a entrada em vigor do novo portfólio.

Além dos aumentos de custos, as empresas de construção civil tiveram que lidar com outra situação desfavorável: uma demanda menor. “A procura, apesar de não estar fraca, desacelerou”, diz Hood, da SLW. “No boom de vendas, prédios eram comercializados em no máximo dois dias. Agora, as empresas demoram de dois a três meses para completar as vendas”, acrescenta o analista.

O crescimento menor do PIB [Produto Interno Bruto] brasileiro também afeta negativamente o setor. “O PIB desacelerou de 7,5% em 2010 para 2,7% no ano passado. Se a economia cresce menos, o setor vai junto”, afirma Hood.

Se os preços das construtoras caíram tanto em bolsa, será que já está barato, então? Os especialistas, em geral, ainda não se arriscam a dizer que o pior já passou. “Não dá para afirmar que as cotações atuais são o piso. Se as empresas tiverem que fazer novos ajustes de custos, as ações devem cair ainda mais”, diz Silveira, da BES. Outro fator que pode piorar a situação é o cenário global. “Se a Europa piorar, haverá uma contaminação geral”, afirma Rodrigues, do HSBC.

Mas, apesar dos riscos, os especialistas acreditam em melhoras. “A tendência é de crescimento da relação entre crédito imobiliário e PIB no Brasil, que ainda é de 4%, ante quase 50% nos Estados Unidos”, diz Hood, da SLW.

Se depender apenas de seus próprios resultados, o setor deve começar a mostrar números mais atraentes durante o segundo semestre ou no fim do ano. “A recuperação não é de curto prazo. As empresas precisam melhorar a margem bruta e mostrar uma geração de caixa sequencial e não esporádica para que os investidores voltem a comprar as ações”, afirma o analista da SLW.

As empresas têm tentado sinalizar que haverá melhora gradativa nas margens na medida em que projetos lançados em 2007 e 2008 forem entregues. As que identificaram estouro de orçamento têm apontado que vêm tomando medidas para controlar melhor os custos e reduzindo a parcela de gestão de obras terceirizadas. Porém, os maus momentos vividos parecem ter deixado muitos analistas e investidores cautelosos.

Em análise recente em seu blog “O Estrategista”, no site do Valor, o analista André Rocha observou que existe uma expectativa positiva de geração de caixa para 2012 por conta da finalização das obras iniciadas entre 2007 e 2008. Ele lembra, no entanto, que, se ocorrerem atrasos na entrega das chaves, essas perspectivas podem não se materializarem. Para Rocha, as incertezas acabam tornando o setor uma opção bastante arriscada para o investidor em bolsa.

Para Silveira, da BES, este segundo trimestre ainda virá ruim, mas o próximo semestre tende a mostrar melhoras. “Tudo vai depender da execução dos projetos, mas a tendência é melhorar, pois, na medida em que entregam os projetos represados, as empresas vão limpando seus balanços”, diz. Ele está revisando as recomendações para os papéis.

Rodrigues, do HSBC, afirma que tem recomendação “underweight” (abaixo da média do mercado) para o segmento desde 2011, quando já tinha preocupações em relação a itens como inflação de mão de obra e espaço menor para ajuste de custos. A PDG era uma das preferidas, mas as margens recentes da empresa decepcionaram o analista.

A Cyrela, segundo ele, tem um dos melhores desempenhos em bolsa porque sofreu com problemas semelhantes antes das demais. “A empresa teve estouro de custos no começo de 2011, e a impressão geral é de que o pior já passou.” As ações da empresa, juntamente com as da MRV, têm a melhor performance em relação ao histórico até o momento. A mínima da Cyrela neste ano foi atingida em 22 de maio, a R$ 13,65. Bem longe do piso histórico pós-oferta de listagem no Novo Mercado, de R$ 5,38, em 2008.

Hood, da SLW, lembra que MRV atua na baixa renda, segmento no qual está a demanda futura no Brasil e para o qual o governo vem sempre acenando com incentivos. A mínima de 2012 é de R$ 8,31 (em 1º de junho), ante piso histórico de R$ 1,96. “A empresa tem experiência no setor e, mesmo atuando na baixa renda, ainda consegue margens boas”, afirma.

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