Construção de mais dois edifícios na Bela Vista prejudica vista do Masp

Folha de S. Paulo
VANESSA CORREA
DE SÃO PAULO

Dois grandes motivos fizeram a arquiteta italiana Lina Bo Bardi (1914-1992) projetar o Masp com um vão-livre de 74 metros de largura. Um deles foi a possibilidade de abusar do concreto armado, técnica explorada pelos modernistas para vencer grandes dimensões sem a necessidade de colunas de sustentação.

A outra razão foi uma exigência feita por Joaquim Eugênio de Lima, doador do terreno à prefeitura. Uma das cláusulas estipuladas pelo engenheiro, que idealizou a av. Paulista no século 19, era a manutenção da vista do Belvedere do Trianon, cuja paisagem dava para a serra da Cantareira, limite norte da capital.

Mas hoje, 44 anos após a inauguração do Masp, pouco se vê da serra. Dois prédios recentes, um deles ainda em construção, obstruíram ainda mais o que havia sobrado de vista.

“Até há pouco tempo, se via a topografia e, ao longe, a serra. Agora, a gente só consegue ver um pouquinho dela”, diz Regina Monteiro, diretora da CPPU (Comissão de Preservação da Paisagem Urbana) da Prefeitura de São Paulo.

PAISAGEM SOB CONTROLE

Para evitar que a perda de paisagens importantes continue a ocorrer, a arquiteta planeja elaborar um Plano Diretor da Paisagem com a participação da população. “Mas é um projeto polêmico, que vai mexer com alguns gabaritos da cidade”, afirma Regina, a “mãe” da Lei Cidade Limpa.

A ideia é que as diretrizes para a paisagem sejam elaboradas e aprovadas junto com o novo PDE (Plano Diretor Estratégico). O plano vigente venceu neste ano e a sua revisão é uma das prioridades para os vereadores que tomam posse em janeiro.

Regras semelhantes já existem em grandes cidades. Em Paris, a prefeitura protege a vista da torre Eiffel e da basílica de Sacré Coer. Em Londres, o mesmo é feito com o Big Ben. Por aqui, Florianópolis protegeu de futuras obras a vista da lagoa da Conceição a partir do mirante do morro da Lagoa.

Para o historiador Alex Miyoshi, autor do livro “Arquitetura em Suspensão” (ed. Autores Associados), sobre a história do Masp, a paisagem deveria ter sido preservada, mas o impacto dos novos edifícios no belvedere não é tão importante.

“Será apenas um edifício a mais nesse ’skyline’ que se vê do Masp, pouco perturbador diante do que já existe”, afirma Miyoshi.

PRETEXTO

A história do vão-livre envolve uma intricada relação de interesses. Segundo Miyoshi, o terreno foi cedido ao Masp por um acordo entre Assis Chateaubriand (1892-1968), fundador do museu e publisher dos Diários Associados, e o então prefeito e candidato à reeleição, Adhemar de Barros (1901-1969).

Ficou acertado entre os dois que os jornais do grupo de Chateaubriand fariam a campanha do político. A condição era que ele aprovasse a doação do terreno para o Masp em detrimento do MAM (Museu de Arte Moderna), projeto de Ciccillo Matarazzo que acabou sendo construído no parque Ibirapuera.

“A justificativa [para manter a vista com um grande vão-livre], embora verdadeira, foi exagerada pela Lina Bo Bardi para legitimar o uso de uma tecnologia [concreto armado] que na época era rara e muito cara. Assim ela conseguiu deixar o MAM fora da disputa”, afirma Miyoshi.

Contatada pela sãopaulo, a direção do Masp preferiu não se manifestar sobre a perda da vista a partir de seu vão-livre

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