Trabalho: Empreender é a arma de jovens da classe C

Empreender é bom negócio desde cedo
Autor(es): SIMONE CALDAS
Correio Braziliense - 26/12/2012

A maioria ainda prefere o emprego, mas cresce um grupo diferente: o dos empreendedores. Eles são ousados e aliam planejamento a intuição. Mas, para montar um negócio, é necessário quebrar várias barreiras.

Os jovens estão investindo cada vez mais na própria empresa. Esse interesse é maior entre os de classe C, que preferem o setor de serviços

Campeão de hipismo, treinador de cavalos e de cavaleiros, Rafael Daher Jardim, 24 anos, aposta no crescimento desse esporte no país para incrementar o próprio negócio. Como o investimento é alto, ele mantém o emprego no Centro Hípico Alterosa, em Ceilândia. Às segundas-feiras e no horário de almoço, corre para o sítio da família, onde está construindo a infraestrutura para adestramento, pensão e venda de animais.

Rafael é o exemplo do jovem empreendedor brasileiro. Alia ousadia, planejamento e intuição para construir o que considera um bom negócio. “Quero aproveitar que o mercado está crescendo e crescer junto”, diz. Assim como ele, 12,8% das pessoas com idade entre 18 e 24 anos estão empreendendo no país. Esse percentual, em 2002, era de 10%. Teve um pico no ano passado, quando chegou a 17,4%, de acordo com a Taxa de Empreendedorismo em Estágio Inicial (TEA), pesquisada pela Global Entrepreneurship (GEM). A queda, de acordo com técnicos, deve-se ao alto nível de empregabilidade no país.

A maioria dos jovens brasileiros ainda prefere investir em carreiras dentro das grandes empresas. Estudo da Page Talent em São Paulo indica, por exemplo, que apenas 11% dos estudantes que estão finalizando o curso universitário querem abrir o próprio negócio. Ainda longe do universo acadêmico, rapazes e moças da nova classe média estão empreendendo cada vez mais. A gerente de Capacitação de Empreendedores do Sebrae, Mirela Malvestiti, explica que os jovens da classe C preferem investir no setor de serviços. A área de beleza é das mais disputadas, assim como a de construção civil.

Caso de sucesso
É o caso de Deane Pereira da Silva, 21 anos, feliz proprietária do salão Glamour, no Paranoá. Nascida na Bahia, chegou a Brasília na adolescência. Aos 13, já trabalhava como babá para ajudar no sustento da família — a mãe e os três irmãos. Foi em casa, treinando nas mãos da mãe, que aprendeu a ser manicure. Em pouco tempo, passou a atender as mulheres da vizinhança e a patroa. A renda adicional animou a jovem a se dedicar à beleza. Arrumou emprego na área, mas não recebia salário, apenas comissão por serviço prestado.

Em pouco tempo, percebeu que, para conseguir progredir, teria que dar passos mais largos. Ao saber que uma microempresária da região havia colocado um de seus salões à venda, não pensou duas vezes. Sem poupança, capital de giro ou crédito, fechou o negócio por R$ 10 mil, para pagar em 10 vezes. “No início ficava pensando “Será que vou conseguir?”. Mas, no fundo, eu sabia que sim”, diz. Menos de dois anos depois, Deane resolveu ampliar o empreendimento. Montou, no fundo do estabelecimento, uma loja de roupas e acessórios femininos. Investiu cerca de R$ 6 mil em mercadorias e mais R$ 4 mil na infraestrutura. “As clientes entram para fazer as unhas e acabam levando mais alguma coisinha”, comemora.

Qualificação e esforço

Para tocar um negócio, é preciso reunir uma série de características, dizem os especialistas. De acordo com um manual do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), “ter um espírito criativo e pesquisador é uma das qualidades fundamentais de um empreendedor”. Não é fácil colocar no mercado um produto ou um serviço inovador e competitivo. Além disso, a burocracia, muitas vezes, faz o candidato a empresário desistir no meio do caminho. Por isso, antes de apostar em um ramo, deve-se pesquisar bem o setor, saber quem é o público-alvo e atendê-lo com qualidade.

Rafael Jardim investiu pesado na capacitação. Praticante de hipismo desde os 11 anos, ele fez curso superior de ciências equinas, na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Curitiba. De lá, partiu para a Inglaterra e para a Bélgica para “aprender a lidar com cavalos esportivos top de linha”, afirma. Segundo Mirela Malvestiti, do Sebrae, ele está no caminho certo. “O melhor é que os jovens empreendedores apostem nas áreas que conhecem e onde enxergam oportunidades.”

Jovens como Rafael e Deane estarão no comando do país em um futuro não muito distante. São eles que azeitarão as molas propulsoras da economia. Uma delas, a criação de empregos, já é acionada por 468 mil empresários de 18 a 24 anos, segundo dados de 2009 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD), elaborada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os que abriram negócios individuais (sem empregados) somam 2,9 milhões.

Se a política econômica colaborar, eles poderão crescer e multiplicar o número de vagas. Para isso, é preciso também criar leis de incentivo e ampliar os cursos de capacitação. Como tocar o próprio negócio é um desafio árduo, as taxas de empreendedorismo jovem que vinham crescendo tiveram uma queda. Os empresários entre 18 e 24 anos de idade que contrataram empregados em 2001 somavam 13% da população nessa faixa etária. Em 2009, foram 12%. Os individuais tiveram redução maior: passaram de 19% para 16%, no mesmo período.

Em família
No caso de Deane, com a rápida expansão do salão de beleza, ela logo percebeu que precisava de ajuda. Por isso, contratou dois de seus irmãos. Gil, 22, é cabeleireiro e Gilberto, 13 — mesma idade em que ela começou na labuta —, está aprendendo a lavar os cabelos das freguesas. “Não é trabalho infantil. Ele estuda e está apenas em treinamento”, argumenta. O garoto concorda. A troca de olhares denuncia a cumplicidade dos que perseguem os mesmos objetivos. No caso, o de vencer na vida.

O sucesso experimentado por Deane até aqui inclui coragem e muito trabalho. Ela começa às 9h e encerra às 18h, todos os dias, inclusive aos domingos. Folga na segunda. No mês de dezembro, quando as festas multiplicam o movimento, a jornada começa às 8h e só é encerrada às 23h. “Neste ano, o faturamento foi menor do que em 2011, estamos aproveitando este mês para recuperar o caixa”, afirma. Talhada no trabalho, ela se permite até alguns mimos, como roupas e bens que sempre quis ter. As conquistas são fruto do talento e, sobretudo, do esforço dela.

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