Empreendimentos harmonizam o novo com a história

Por Cláudio Marques | De São Paulo - O ESTADO DE S. PAULO - 30/10/2016

Empreendimento Romi 56 construído no terreno da antiga fábrica da Romi-isetta

Empreendimento Romi 56 construído no terreno da antiga fábrica da Romi-isetta

Na cidade que cresce constantemente para os lados e para cima, muitas vezes dando nova destinação a áreas previamente ocupadas, incorporadoras criam projetos que ajudam a preservar a memória desses lugares reconfigurados.

O exemplo mais recente é o empreendimento Romi 56, da Vivenda Lare, localizado na Rua Coriolano, na Vila Romana, zona oeste de São Paulo. Lançado no último fim de semana, vai ocupar o terreno onde funcionou a Indústrias Romi. A empresa ficou nacionalmente conhecida por fabricar o primeiro veículo brasileiro em série, a minúscula Romi-Isetta.

Junto à fábrica, que transferiu suas atividades para o interior paulista, estava o prédio administrativo da Romi, que foi tombado em 2004 pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio (Conpresp). Por isso, a compra do terreno envolveu a preservação do edifício de arquitetura modernista projetado por Lúcio Grinover.

“Além de ser o escritório da Romi em São Paulo, o edifício também foi pensado para acomodar cursos e conferências para os operários e técnicos da empresa. Por isso, todos os andares foram planejados com lajes livres, sem divisões internas, para que houvesse espaços adaptáveis a qualquer uso”, conta Grinover em uma publicação da Vivenda Lare.

Diretora da incorporadora, Adriana Saleiros diz que o projeto prevê um retrofit interno no antigo edifício Romi,que seguindo as restrições do Conpresp, dará lugar a 50 lofts. Ao lado, diz ela, será erguido um edifício com 76 unidades de dois dormitórios com metragem de 67 m² ou 70 m².

“Esse terreno nos foi apresentado no meio do ano passado por uma comercializadora. As grandes construtoras estavam com receio de comprá-lo por causa do tombamento, mas nós encaramos o desafio de manter a fachada, o telhado, a parte original do edifício, que é de 1957. E vamos construir um prédio ao lado”, conta Adriana.

“Juntamos o tombamento com os 60 anos da primeira indústria que fabricou um automóvel em série aqui no Brasil, a Romi-Isetta, em 1956”, diz a executiva, referindo-se ao nome do empreendimento.
A diretora admite que a procura pelos lofts surpreendeu. “Acredito que por eles serem diferentes, terem uma história por trás, está ocorrendo ‘overbooking’. Não achávamos que a região fosse tão carente desse produto”, afirma.

Os lofts terão metragens de 27 m², 39 m², 41 m² e 55 m² e preço de R$ 13 mil o metro quadrado. Todos têm vaga de garagem. As unidades de dois dormitórios custam a partir R$ 10 mil/m². Todo o empreendimento, que tem projeto do arquiteto Paulo Lisboa, ainda oferece áreas de lazer e de convivência.

Segundo Adriana, o edifício foi projetado de olho no futuro. “Ele contempla estrutura para água de reúso, fechadura biométrica, ar-condicionado com placa solar, portaria inteligente, tomadas para carro e bicicleta elétricos, tomada USB nos apartamentos”, ressalta. “Sessenta anos se passaram e tudo ainda é muito contemporâneo.”

Multiuso. Outro empreendimento que compartilha o novo com o tradicional é o Praça Pamplona, que a Brookfield vai entregar ainda neste ano. A duas quadra da Avenida Paulista, na Rua Pamplona, na Bela Vista, o conjunto está localizado no terreno de um casarão da época dos barões do café que abrigava, desde 1952, a sede da Fundação Instituto de Física Teórica (IFT) da Unesp. Em 1958, o imóvel e o terreno passaram a pertencer à instituição. E nos anos 1980, o palacete foi tombado pelo patrimônio histórico.

“Em 2010 estávamos prospectando terrenos e surgiu a oportunidade para um edifício comercial na região da Paulista, o que na nossa visão fazia todo o sentido. Havia, porém, o desafio de fazer um projeto peculiar, que pudesse conservar e preservar da melhor maneira possível a essência que o terreno e o lugar já tinham”, conta o diretor de Incorporações da Brookfield, José de Albuquerque.

O terreno de 6.550 m² foi adquirido em fevereiro de 2011. Parte do pagamento, de acordo com o executivo, incluiu a conservação do casarão e permuta – o Instituto fica dono de uma parte das salas do prédio comercial . A instituição ainda ficará responsável pela operação do casarão e do teatro digital que também será entregue neste ano. E ainda receberá uma nova sede.

“Esse foi o negócio”, diz Albuquerque. “Mas a grande diferença com qualquer prédio comercial que fazemos é que ali será um grande centro de convivência e de pesquisas.” Ele destaca que o local tem “uma baita” área verde com árvores nativas.

Assim, o empreendimento é na verdade um complexo multiuso com torre comercial, teatro digital, centro de pesquisas, centro cultural e social (no antigo casarão) e uma Praça de Convivência. De acordo com Albuquerque, o valor médio das salas comerciais é de R$ 730 mil. As metragens disponíveis vão de 32 m² a 160 m².

A Brookfield tem em seu currículo um outro empreendimento levantado em um local marcado pela história: a casa Bandeirista, na Avenida Faria Lima, onde foi erguido o Pátio Malzoni. A empresa comprou o terreno, o último a ser ocupado naquela via, em conjunto com o grupo Vitor Malzoni, mas em 2010 vendeu sua parte para o grupo e se encarregou apenas de sua obra.

No local surgiu, em 2011, um empreendimento comercial de altíssimo padrão e com um projeto arquitetônico que permite ver da rua a pequena casa construída no século 17 entre as duas torres do conjunto, que se conectam por intermédio de um pórtico gigante. O imóvel era parte do sítio Itaí, que foi tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico (Condephaat) e passou por um processo de restauração durante as obras do conjunto, que teve de ser erguido a 10 metros de distância.

Com 20 andares, possui estação de tratamento de água e utiliza água de reúso. No entanto, enfrentou dificuldades para ser totalmente ocupado e chegou a ser colocado a venda no início do ano passado.
Em Perdizes, na zona oeste de São Paulo, um projeto imobiliário contribuiu para que o Colégio Batista superasse suas dificuldades e retomasse seu papel de destaque.

Em 2008, a instituição passava por dificuldades e decidiu vender parte do terreno que ocupava no quadrilátero formado pelas ruas Monte Alegre, Homem de Melo, Ministro Godoy e João Ramalho.
A Exto Incorporação e Construção se interessou pela oportunidade e se junto à Cyrela. Inicialmente, a área em negociação tinha em vista o principal bloco do colégio, de frente para a Rua Homem de Melo.

A transação chegou a ser fechada. No entanto, surgiu um movimento de moradores do bairro para que o prédio do colégio fosse preservado, o que culminou com a troca pela área contígua ao do edifício, ocupando uma parte do terreno que era menos aproveitada.

Nesse meio tempo, recorda o presidente da Exto, Roberto Matos, o prédio da instituição de ensino foi tombado. Ele diz que os arquitetos do empreendimento já tinham convencido o colégio de que derrubar o prédio não seria a melhor solução, independentemente do tombamento.

De acordo com Matos, para o então novo empreendimento, entregue em 2010, foi desenvolvido um projeto de modo a interferir o menos possível com o colégio. “Procuramos fazer uma interação com o colégio da forma mais sutil possível. Assim, toda divisão de área é feita com paisagismo, as quadras esportivas são vazadas com telas, para que não ficasse algo fechado, bloqueado”, conta.

O conjunto ocupa uma área de 3.361 m² na qual foram erguidas quatro torres em estilo neoclássico de oito andares cada, com dois apartamentos de alto padrão por pavimento, com metragem variando entre 266 m² a 567 m², dependendo da tipologia. Matos diz que a solução valorizou toda a área, inclusive o colégio, que a se recuperou da crise pela qual passava.

Os termos da negociação envolviam melhorias. “Fizemos novas quadras, cobertas, e revitalizamos o colégio Tombado, fizemos pequenas intervenções, de acordo com as orientações do Conpresp”, diz Mato

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