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Incentivo a imóveis

quarta-feira, outubro 17th, 2012

VÂNIA CRISTINO
Correio Braziliense - 17/10/2012

As desapropriações de imóveis urbanos ocupados por assentamentos irregulares vão andar. A Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou, ontem, em caráter conclusivo, o Projeto de Lei nº 7979/2010, encaminhado pelo governo, que acelera as desapropriações por utilidade pública. O objetivo é ampliar a oferta de imóveis regulares destinados à população de baixa renda, no âmbito do programa Minha Casa, Minha Vida. O texto segue agora para o Senado.

Segundo a proposta do Executivo, o projeto também viabilizará a construção de novas unidades habitacionais vinculadas às obras de urbanização de assentamentos precários, como favelas, realizadas por meio do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), nos casos em que se fizer necessária a desapropriação de imóveis.

Na prática, o projeto altera o Decreto-Lei nº 3.365, de 1941, em relação aos prazos e aos requisitos para que o juiz conceda a posse provisória do imóvel, no caso de alegação de urgência pelo ente que vai desapropriar o bem. De acordo com o texto, o juiz expedirá mandado, no prazo de 48 horas, determinando a posse provisória mediante depósito do preço ofertado pela desapropriação e a apresentação da documentação necessária.

O registro do bem deverá ser feito em cartório competente, com a apresentação do mandado judicial e da documentação técnica. A legislação atual não estabelece prazo para o juiz dar entrada no documento provisório.

Novos edifícios migram de São Paulo para cidades vizinhas

quinta-feira, agosto 30th, 2012

CAROLINA MATOS
FOLHA DE SÃO PAULO

A cidade de São Paulo deve lançar cerca de 30% menos imóveis residenciais neste ano do que em 2011, enquanto os demais municípios da região metropolitana, quase 40% mais. A estimativa é do Secovi-SP, sindicato que representa as construtoras.

No ano passado, São Paulo lançou pouco mais de 38 mil unidades. As 38 cidades do entorno, 29 mil.

O encarecimento dos terrenos na capital paulista e as restrições impostas ao tamanho dos edifícios dificultam os lançamentos, afirmam empresas e consultores.

“Nos vizinhos, há mais terrenos e menos entraves das leis de zoneamento”, diz Flávio Prando, vice-presidente de habitação econômica do Secovi-SP.

Em vários bairros da capital, como Vila Leopoldina (zona oeste), Morumbi (zona oeste, divisa com a sul) e Mooca (zona leste), acabaram as outorgas onerosas, licenças adquiridas pelas incorporadoras para a construção de edifícios maiores.
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“Sem outorgas, é preciso comprar um terreno muito grande para fazer um empreendimento, o que inviabiliza o processo, pois as áreas são cada vez mais escassas e caras”, diz Celso Amaral, diretor corporativo do Geoimovel e da Amaral D’Avila Engenharia de Avaliações.

As cidades vizinhas a São Paulo ganham progressivamente participação no total de lançamentos residenciais na Região Metropolitana. Em 2004, a fatia era de 20%. Neste ano, chegou a 45%.

Barueri foi a cidade, excetuadando-se a capital, que mais lançou em 2012 até julho, impulsionada pelos empreendimentos de Alphaville. Em seguida, aparecem Santo André, São Bernardo do Campo, Guarulhos e Osasco.

No ranking do mesmo período do ano passado, Barueri (Alphaville) estava em quinto lugar.

“Com a grande quantidade de prédios comerciais em Alphaville, mais paulistanos passaram a trabalhar ali, mesmo morando na capital. Com a piora do trânsito, muitas dessas pessoas têm preferido se mudar para lá”, diz Amaral, do Geoimovel.

Consultores ouvidos pela Folha destacam ainda o crescimento econômico de outros municípios, como Guarulhos, Osasco e São Bernardo do Campo, como fator de atração de residentes.

As três cidades ocupam, respectivamente, a 9ª, a 12ª e 13ª posições no ranking das maiores do país em PIB (Produto Interno Bruto –leia mais na pág. 4) do IBGE.

Na avaliação de Amaral, para que a capital volte a ganhar impulso nos lançamentos, a próxima administração terá de rever as regras para ocupação do solo.

“Demanda por residências ainda existe, mas as incorporadoras têm optado por lançar mais no entorno da cidade. A oferta menor de novos pode elevar o preço do imóvel usado,” afirma.

Para Kleber Luiz Zanchim, professor de direito dos contratos do Insper, o entrave à construção de prédios não é o único ponto sensível na discussão sobre o zoneamento.

“São Paulo está à beira de um colapso. Precisamos de planejamento urbano para decidir que tipo de cidade seremos daqui a alguns anos, em moradia, mobilidade e segurança, por exemplo.”

ESTUDOS

Procurada, a prefeitura informou, por e-mail, que estudos têm sido feitos para subsidiar a possível revisão dos estoques de potencial construtivo [outorgas onerosas].

Por que a MRV criou uma empresa de loteamentos (por eles mesmos)

quarta-feira, julho 11th, 2012

Leonardo Corrêa, diretor executivo financeiro da MRV, e Flávio Araújo, diretor executivo da Urbamais, contam os planos para a nova companhia
Tatiana Vaz, de Exame.com

MRV: criação da empresa de loteamento trará sinergia para o grupo

São Paulo – A construtora MRV Engenharia decidiu apostar em um novo ramo de negócios: o de loteamento, por meio da empresa Urbamais Properties e Participações. A loteadora recebeu um aporte inicial de 50 milhões de reais e já nasce com a expectativa de ter um banco de terrenos com projetos aprovados até 2014 de até 60 milhões de metros quadrados – o equivalente a um VGV de 5,4 bilhões de reais.

Para explicar melhor o que a construtora pretende com tal braço de negócio, Leonardo Corrêa, diretor executivo financeiro da MRV, e Flávio Araújo, diretor executivo da Urbamais, contam os planos para a nova companhia a seguir com exclusividade à EXAME.com:

EXAME.com – Por que resolveram entrar no segmento de loteamentos?

Leonardo Corrêa - No Brasil existe um bônus demográfico grande com demanda por espaços urbanos, construídos de maneira planejada. Nosso intuito, com a Urbamais, é atender esse mercado. O foco principal será residencial, mas conforme as necessidades das áreas de localização dos lotes, também faremos projetos para áreas comercial e industrial.

EXAME.com – Como a ideia de conceber a Urbamais foi desenvolvida dentro da empresa?

Flávio Araújo – De janeiro de 2011 a janeiro deste ano, a Urbamais passou por uma fase de incubadora dentro da MRV, período em que foi avaliada a viabilidade comercial e financeira do projeto, que acabou se tornando uma empresa por conta da sua relevância. Todos os diretores da construtora estiveram de alguma forma envolvidos no projeto e a ideia é que a Urbamais ganhe independência total da empresa mãe em breve.

Corrêa – Em janeiro trouxemos o Flávio de uma empresa de pavimentação e outros serviços para atuar como diretor executivo da nova companhia. Com ele, montamos uma equipe de pessoas de dentro e fora da MRV para se dedicar apenas à nova companhia. Hoje, a Urbamais começa a funcionar em salas distintas às da MRV, mesmo com a proximidade da sede de ambas, na capital mineira.

EXAME.com – E o conselho, como será composto?

Araújo – Além de Ruben Menin, presidente da MRV, e eu, o conselho contará também com outros três executivos da MRV: Rafael Souza, diretor executivo regional, Maria Fernanda Maia, diretora executiva jurídica e Marcos Cabaleiro, vice-presidente. Mais para frente nossa pretensão é sim contar ainda com a presença de conselheiros independentes.

EXAME.com – A Urbamais vai atuar onde a MRV já está?

Araújo – Basicamente sim, 120 cidades em todas as regiões do país, com exceção do Norte. Nosso foco será atuar em cidades com população acima de 200.000 habitantes, com projetos voltados à classe média e com mais de 300.000 metros quadrados.

Corrêa - A expectativa é que o banco de terrenos com projetos aprovados até 2014 chegue a 60 milhões de metros quadrados, o correspondente a um VGV de 5,4 bilhões de reais.

EXAME.com – Mas a ideia não é apenas vender para a própria MRV e Log, empresa de ativos para renda do grupo, né?

Corrêa – Não, vamos ofertar os serviços da Urbamais para todos os interessados. Claro que a MRV e Log terão sim prioridade de atendimento com o intuito de fazermos projetos mistos. Mas como as empresas serão de investidores e acionistas diferentes todas as negociações serão feitas entre as partes com base em preços praticados no mercado.

EXAME.com - Quanto a Urbamais pode atrapalhar ou ajudar nos resultados da MRV?

Corrêa – A Urbamais não atrapalhará em nada a MRV, pelo contrário. A sinergia entre as companhias é muito grande e novos negócios devem ser gerados para ambas a partir do trabalho em conjunto. Além disso, o valor investido na criação da companhia (50 milhões de reais, tendo 30 milhões de reais sido desembolsados pela MRV e 20 milhões de reais pelos controladores) é pequeno comparado ao valor de mercado do grupo hoje.

EXAME.com – A nova incorporadora competirá de igual com a Alphaville, da Gafisa?

Corrêa – Entendemos que nosso negócio é diferente porque iremos trabalhar com loteamento de terrenos como um todo, para todos os tipos de classes de consumo, enquanto que hoje Alphaville atende mais classe alta. Há uma demanda alta no país por esse tipo de serviço pela necessidade de expansão dos espaços urbanos, qualidade das cidades que temos hoje e construir com a melhor qualidade possível. Não queremos ficar de fora.

Metrô revê áreas na mira das desapropriações

terça-feira, junho 19th, 2012

Fábio Munhoz
Do Diário do Grande ABC

O Metrô publicou no fim de semana edital para a contração de empresa de engenharia que fará a elaboração de cadastro individual dos imóveis a serem desapropriados em razão da construção da Linha 18-Bronze. O itinerário será operado por meio de monotrilho e fará a ligação de São Bernardo com a Capital, passando também por Santo André e São Caetano.

O projeto funcional elaborado pelo Metrô prevê a desapropriação de 51 áreas, que somam 200.876 metros quadrados. Agora, a empresa que vencer a licitação irá percorrer todos os imóveis para definir se terão mesmo de ser demolidos. A expectativa é de que esse processo reduza o número total de áreas.

As empresas interessadas na elaboração da lista de imóveis têm até o dia 1º de agosto para se manifestar. A abertura das propostas está prevista para o dia 3 do mesmo mês. Ainda não há previsão de investimentos.

O estudo é o primeiro passo para a construção do monotrilho, já que as desapropriações só podem ser feitas após a emissão de decreto de utilidade pública. Sem o documento, as obras não podem ser iniciadas.

Para tentar evitar as desapropriações dos novos condomínios residenciais na Avenida Aldino Pinotti, em São Bernardo, comissão com cerca de 250 pessoas se reuniu com representantes do Metrô e das secretarias estadual e municipal de transportes. “Fizemos a proposta para que o monotrilho passe pela Avenida Pereira Barreto, mas ainda não tivemos resposta”, conta o analista de sistemas André Savoia, 30, um dos integrantes do movimento.

O trajeto da linha será definido após o dia 16 de julho, prazo para que as 12 empresas participantes do chamamento público lançado em fevereiro apresentem os estudos técnicos para a construção. A partir daí já será possível fazer a licitação para definir a empresa que irá executar as obras.

A expectativa do governo do Estado é de que os trabalhos comecem no início do ano que vem e o primeiro trecho, entre o Paço de São Bernardo e a Estação Tamanduateí, na Capital, seja entregue em 2015. O segundo trecho será a extensão da linha até o bairro Alvarenga e deve ficar pronto para 2016. O orçamento total previsto é de R$ 4,1 bilhões.

A Linha 18-Bronze terá 20 quilômetros, 18 estações e quatro terminais integrados. Todo o trajeto será elevado e terá como base os corredores viários já existentes. O Metrô estima que, em pleno funcionamento, o monotrilho receberá 300 mil usuários por dia útil. As 20 composições terão intervalo médio de 166 segundos.

Guarulhos se destaca na região metropolitana

quarta-feira, maio 30th, 2012

Radar Imobiliário - Estadão.com.br
Claudio Marques

Segunda cidade mais populosa do Estado, Guarulhos é o principal mercado da Grande São Paulo após a capital. A cidade concentrou 24,2% das 73.447 unidades lançadas na região metropolitana (excetuando São Paulo) de novembro de 2009 a abril de 2012. Seus 17,7 mil imóveis representam alta de 43% em relação aos 30 meses anteriores.

“A valorização por lá foi muito grande, especialmente das unidades compactas”, diz o diretor da Embraesp, Luiz Paulo Pompéia. O município é dominado por unidades de dois dormitórios (12.072), e seu preço médio de metro quadrado útil está avaliado em R$ 3,2 mil – a metragem em São Paulo custa R$ 5,6 mil.

A MRV Engenharia, focada no mercado econômico, lançou por lá 2,5 mil unidades em cinco empreendimentos desde novembro de 2009. “Guarulhos tem renda, gente e ainda tem terrenos. Temos mais um para lançar com 700 unidades. Chama-se Santa Mônica, em Bom Sucesso”, diz o diretor comercial da empresa na região, Sérgio Paulo Amaral.

Grilagem milionária no Recreio dos Bandeirantes

quinta-feira, maio 3rd, 2012

O banqueiro Salvatore Cacciola e quatro construtoras disputam terreno onde se ergue o Thai Condominium Club, a 50 quilômetros do centro do Rio

Caio Barretto Briso e Sofia Cerqueira, Veja Rio

Os lotes onde são erguidas as duas torres fazem parte de uma vasta área de 20 000 metros quadrados que é alvo de uma enroladíssima disputa judicial

Rio de Janeiro - As obras do Thai Condominium Club, no Recreio dos Bandeirantes, a 50 quilômetros do centro do Rio, acontecem em ritmo acelerado, com operários trabalhando inclusive no turno da noite para que tudo por ali fique pronto até julho de 2013.

Lançado em outubro de 2010, o conjunto residencial foi um sucesso absoluto de vendas: seus 244 apartamentos de dois e três dormitórios acabaram sendo negociados ao preço médio de 400 000 reais em poucas semanas. Símbolo de uma cidade que se expande pela Zona Oeste, o empreendimento seria apenas mais um entre as dezenas que brotam na região, não fosse a complicada história dos terrenos que ocupa.

Os lotes onde são erguidas as duas torres fazem parte de uma vasta área de 20 000 metros quadrados que é alvo de uma enroladíssima disputa judicial. Trata-se de uma trama que envolve assinaturas falsificadas, nomes poderosos e pessoas de poucas posses que se tornaram proprietárias do dia para a noite.

Considerando o potencial de construção daquela área, a cifra em jogo é da ordem de 300 milhões de reais e põe em campos opostos o antigo dono, o notório ex-banqueiro Salvatore Alberto Cacciola, o italiano Luca Nicolotti, que se apresenta como o verdadeiro detentor da posse legal e vítima do golpe, e quatro construtoras. Entre elas está a João Fortes Engenharia, capitaneada pelo bilionário Antônio José de Almeida Carneiro, conhecido na alta-roda carioca como Bode. “Roubaram tudo”, acusa Nicolotti.

Com quase 500 páginas, o inquérito policial que investiga o caso é bastante completo e destrincha os meandros da falcatrua. A história começa com um dos maiores escândalos financeiros do país.

Disperso entre a Avenida das Américas e a Estrada do Pontal, o terrenão pertencia originalmente ao banqueiro Alberto Cacciola, que o registrou em nome de uma empresa sediada no Uruguai.

Com a falência de seu banco, o Marka, em 1999, essa mesma empresa foi repassada a um grupo italiano amigo, hoje nas mãos do construtor romano Luca Nicolotti. Sem apoio do parceiro local, que ficou preso até recentemente, e com o mercado imobiliário em baixa, ele deixou o negócio parado até 2010, quando finalmente veio ao Brasil para conhecer sua propriedade.

Na visita, teve uma bela surpresa: descobriu que o terreno, dividido em dez lotes, havia sido repassado para pessoas e empresas com as quais nunca teve contato. Realizada por grileiros especializados em se apossar de imóveis na Zona Oeste, a fraude foi lavrada em nove cartórios do Rio, Niterói, Petrópolis, Duque de Caxias e Nova Iguaçu.

Segundo a documentação forjada, a representante legal de Nicolotti, a uruguaia Adriana Moreno Sosa, teria comparecido pessoalmente aos tabelionatos para efetivar as transações. O problema é que Adriana não tinha posto os pés no Brasil até fevereiro deste ano, quando foi intimada a depor na 42ª DP, delegacia responsável pela apuração do crime. Além disso, seu cargo na firma do italiano não lhe dava poderes para negociar seu patrimônio. “Estamos fazendo de tudo para prender os responsáveis. Temos indícios suficientes para dizer que os documentos usados são falsos”, afirma a delegada Adriana Belém, que, por uma irônica coincidência, trabalha em frente ao condomínio em obras.

Grosseira, a fraude reúne todos os elementos dos crimes contra a propriedade no país: a ousadia dos estelionatários, a incompetência de quem deveria evitar a manobra e os já clássicos laranjas, gente simples que empresta o nome para negócios escusos.

A transação envolvendo os terrenos comprados pela João Fortes é um exemplo emblemático dessa dinâmica. Em setembro de 2008, o ex-vigia Abílio Veiga da Trindade, 45 anos, tornou-se oficialmente dono de três dos dez terrenos. Segundo as escrituras, lavradas pelo 7º Ofício de Duque de Caxias, ele teria pago 1,7 milhão de reais pelas aquisições. A operação surpreende por se tratar de alguém que tem padrão de vida incompatível com a movimentação de tal volume de recursos.

Com os estudos interrompidos no 4º ano do ensino fundamental, Trindade foi dono de uma lojinha de informática em Vila Valqueire, subúrbio carioca, e trabalhou como vigilante do shopping Downtown, na Barra. Hoje, mora de favor na casa da mãe, em Oswaldo Cruz. Seu único bem é um Ford Fiesta 1998 - amassado. Em entrevista a VEJA RIO, ele alegou que pediu dinheiro emprestado a dois amigos e nem sequer teve conhecimento da revenda dos lotes para a João Fortes.

No início deste ano, Nicolotti desembarcou no Rio para uma derradeira tentativa de acordo com a João Fortes. Depois de acenar inicialmente com uma proposta de reparação baseada na doação de dez apartamentos, o italiano exigiu 12 milhões de reais para retirar a ação e encerrar a briga. O pedido, mais uma vez, foi negado. “Para nós, ele é um estranho. Nunca nos mostrou um documento provando ser o dono dos terrenos”, completa Rimes.

O fracasso dessa aproximação levou a uma nova investida. Desta vez, envolvendo figuras de relevo das finanças cariocas. Recém-saído da cadeia, o ex-banqueiro Alberto Cacciola ressurgiu na trama e apresentou-se como representante de Nicolotti. Nessa condição, fez uma visita ao escritório do acionista majoritário da João Fortes, Antônio José de Almeida Carneiro, o Bode.

Tratava-se de um encontro de velhos conhecidos. Assim como Cacciola, que teve a pena extinta há duas semanas, o controlador da João Fortes também foi dono de banco. Hoje seus negócios se espalham em uma miríade de participações em vários conglomerados, com patrimônio estimado em 1,1 bilhão de dólares (Bode, aliás, acaba de estrear na lista dos bilionários da revista americana Forbes).

Segundo testemunhas, além de ter se transformado em um acalorado bate-boca, a reunião acabou deixando para trás um rastro de objetos de decoração quebrados na sala, localizada em um elegante prédio do Leblon. Os dois negam o enfrentamento. “Eu o recebi em nome de uma antiga amizade, mas sou apenas um dos acionistas da João Fortes e não houve entendimento”, diz Bode. Cacciola é menos diplomático. “Com a maior cara de pau, ele disse que todos os apartamentos estavam vendidos e não havia nada a fazer. É o que veremos no tribunal”, afirma o ex-banqueiro, que pela ajuda ao amigo italiano receberá uma polpuda comissão. No processo judicial, inclusive, é citada a hipótese de que seja, desde o início, o verdadeiro dono da propriedade.

Das confusões que envolvem esses terrenos do Recreio, a briga João Fortes versus Cacciola é a que mais chama atenção. Mas não é a única. Além da ação envolvendo o condomínio Thai, existem outros nove processos contra falsários e sócios de construtoras que compraram lotes na área.

Embora tenha ouvido doze pessoas e produzido centenas de páginas de investigação, a polícia ainda não identificou o cérebro (ou cérebros) por trás do golpe, mas já tem algumas pistas. Nas transações, é recorrente o nome de um suposto corretor, Luciano José da Cruz Mata, 41 anos, foragido há pelo menos três.

Um processo contra ele foi arquivado recentemente porque a Justiça não conseguiu encontrá-lo. Outra figura que se repete no esquema é o gaúcho Rômulo Augusto Gonçalves de Oliveira, 62 anos. Dono de uma alentada ficha policial e com dois mandados de prisão por estelionato, ele se tornou proprietário de quatro lotes entre 2009 e 2011, falsificando assinaturas e comprovantes de residência. “Casos assim evidenciam sérios problemas nos cartórios. Ou eles têm sistemas falhos de registro ou estão diretamente envolvidos no esquema”, diz a delegada Adriana Belém.

Infelizmente, casos semelhantes são muito comuns na Zona Oeste, região do Rio que cresce em ritmo asiático. Dos atuais 202 empreendimentos em construção na capital, nada menos que 127 são nessa área. Faz todo o sentido que mais da metade dos lançamentos aconteça por ali.

Afinal, é onde se concentra a maior quantidade de espaços disponíveis no município. Pela mesma razão, os grileiros encontram no triângulo Barra-Recreio-Jacarepaguá solo fértil para suas trapaças. Em 2010, foi descoberta uma quadrilha chefiada por um delegado da Polícia Civil.

O bando tinha contatos em vários cartórios e atuava no “ramo” há mais de duas décadas. Recentemente, a área em que a Confederação Brasileira de Futebol pretende construir um centro de treinamento e o museu do futebol foi alvo de disputa semelhante. Espera-se que episódios lamentáveis como esse não se repitam e, principalmente, não transformem o sonho da casa própria de famílias inocentes em pesadelo.

Prefeitura vai liberar mais 16,7 mil imóveis no eixo Lapa-Barra Funda

terça-feira, abril 17th, 2012

Projeto revisa a Operação Urbana Água Branca para adensar a região entre a linha férrea e o Rio Tietê, hoje tomada por galpões

ADRIANA FERRAZ, DIEGO ZANCHETTA, RODRIGO BRANCATELLI - O Estado de S.Paulo

A Prefeitura de São Paulo quer lançar no mercado um estoque de títulos imobiliários que vai permitir a construção de 16.740 apartamentos no eixo Lapa-Barra Funda, na zona oeste da cidade. O objetivo é levar cerca de 66,9 mil moradores para espaços ociosos ao longo da linha férrea, que corta a região. Se todo o potencial construtivo for vendido, serão 160 habitantes por hectare em bairros cuja ocupação média hoje é de 36 por hectare.

O projeto de lei que revisa a Operação Urbana Água Branca, obtido com exclusividade pelo Estado, permite um adicional de 1,85 milhão de metros quadrados no perímetro de 540 hectares entre a Lapa e a Barra Funda. A nova cota é três vezes maior do que os 409 mil m² consumidos nos últimos 17 anos na área da operação, e que permitiram a chegada de empreendimentos como o Bourbon Shopping, o condomínio Casa das Caldeiras e o câmpus da Universidade 9 de Julho (Uninove).

O estoque extra será negociado na Bolsa de Valores, em leilão, por meio da venda de Certificados de Potencial Adicional de Construção (Cepacs). Os títulos permitem à iniciativa privada construir acima da metragem estabelecida na lei de zoneamento.

Segundo a Prefeitura, a área que foi adensada por prédios comerciais na Pompeia, em Perdizes e na Água Branca será “protegida” pela nova legislação. O foco agora é atender a demanda por prédios residenciais na Lapa e na Barra Funda, especialmente na área entre a linha do trem e o Rio Tietê.

Residências. Ao propor a revisão da operação urbana, a gestão Gilberto Kassab (PSD) argumenta que houve uma mudança de perfil na região, antes com vocação comercial e hoje, majoritariamente residencial. Técnicos da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano justificam que há dezenas de galpões do “outro lado da linha do trem”, muitos abandonados há duas décadas, que podem ser substituídos por torres de apartamentos.

Os bairros são dotados de boa infraestrutura de transportes públicos. Lançamentos recentes na região têm 100% de unidades vendidas em menos de dois meses, segundo corretores.

Tanto interesse se traduz em números. Do total de 1,85 milhão de m² extras, 1,05 milhão será vinculado a empreendimentos residenciais. É mais que o triplo do estoque atual, fixado em 300 mil m². O novo estoque residencial ainda representa 59% dos 3,11 milhões de m² edificados em toda a capital paulista em 2011 - foram 443 prédios no ano passado, com 38.149 apartamentos, segundo a Empresa Brasileira de Estudos de Patrimônio (Embraesp).

Melhorias. A dúvida de especialistas, porém, é se a chegada de novos prédios vai se reverter em melhorias para a população, o que não ocorreu nos primeiros 17 anos da Operação Urbana Água Branca. O corredor comercial que se consolidou na última década na Avenida Francisco Matarazzo ainda não se reverteu em obras e benefícios viários e urbanísticos, como previa o projeto original de 1995.

Por que os imóveis sobem menos no Nordeste

segunda-feira, março 19th, 2012

Grandes cidades nordestinas como Salvador, Fortaleza ou Natal não passaram por um bom imobiliário tão intenso quanto São Paulo e Rio de Janeiro

João Sandrini, de Exame.com

São Paulo – As regiões Norte e Nordeste concentraram o crescimento da renda na década passada. Segundo o último censo demográfico do IBGE, são das duas regiões os cinco estados em que a renda mais cresceu entre 2000 e 2010: Tocantins (50%), Maranhão (46%), Piauí (42%), Sergipe (41%) e Paraíba (37%). A expansão dos rendimentos permitiu que o consumo crescesse a um ritmo chinês no Nordeste. Já em São Paulo, o crescimento da renda, de 3%, foi o menor do Brasil.

É de se estranhar, portanto, que a maior metrópole do país tenha sido o principal palco, junto com o Rio de Janeiro, do boom imobiliário dos últimos anos. Desde 2008, os preços subiram 129,5% e 162,1% em São Paulo e no Rio de Janeiro, respectivamente, segundo o índice FipeZAP, principal parâmetro do valor das residências no país.

O índice FipeZAP só passou a incluir dados de cidades de Nordeste a partir de 2010. A tabela abaixo mostra que, considerando esse período, a valorização média nas duas maiores metrópoles brasileiras foi bem maior que nas capitais nordestinas:

Cidade / Valorização imobiliária desde agosto de 2010

Rio de Janeiro / 56,70%
São Paulo / 41,30%
Recife / 48,70%
Fortaleza / 22%
Salvador / 12,90%

Fonte: Índice FipeZAP

Para entender por que os preços no Nordeste ficaram para trás mesmo com o maior crescimento da renda, EXAME.com conversou com Silvio Bezerra e Marcelo Freitas, presidente e diretor-financeiro da Ecocil, a maior incorporadora do Rio Grande do Norte. Abaixo eles explicam o que movimentou o mercado imobiliário nordestino nos últimos anos:

Os imóveis no Nordeste subiram bem menos que em São Paulo ou no Rio de Janeiro. A diferença é a menor especulação. As cidades são bem menos adensadas. Ainda que os preços dos terrenos já não sejam baixos, há mais opções de locais para construir.

Outro problema foi que o mercado de segunda residência também caiu muito. Havia no Nordeste uma grande demanda de estrangeiros, principalmente de europeus. Com a crise, eles estão com menos dinheiro. Havia vários voos charter diretos da Europa para Natal. Agora eles acabaram. Em outras cidades nordestinas, a oferta de voos também diminuiu.

A grande exceção é Recife, onde o mercado imobiliário está em ótima fase. Com os investimentos que foram feitos no porto de Suape e no entorno, Pernambuco teve um grande desenvolvimento. Grandes empresas como a Fiat estão fazendo pesados investimentos no estado. Recife também é uma cidade bem mais adensada, com uma oferta mais baixa de terrenos. Isso tudo favorece o atual processo de valorização.

Natal é bem diferente. Em primeiro lugar, é um mercado menor. A cidade tem 1,2 milhão de habitantes. A renda da população vem crescendo bastante, mas ainda é baixa quando comparada à de São Paulo ou do Rio. Até a Copa, o Rio Grande do Norte vai receber um volume representativo de 6 bilhões de reais em investimentos. Vai movimentar a economia.

Teremos um aeroporto que vai ser enorme, com grande capacidade para o transporte de cargas e passageiros. Natal passará a ter esse aspecto de entreposto comercial para as empresas no Nordeste. Há também investimentos relevantes da Petrobras em Mossoró, uma das principais reservas para a exploração de petróleo em terra do Brasil.

Mas a economia do Rio Grande do Norte ainda depende demais do turismo, da pesca, do camarão e da produção de frutas. São atividades prejudicadas pelo real valorizado. O mesmo vale para a indústria têxtil. A Coteminas anunciou há poucos dias o fechamento de uma fábrica em Natal e a demissão de 6.000 empregados. Eles prometem erguer um empreendimento imobiliário bem grande no local, com shopping, escritórios e residências. Mas é um punhado de gente desempregada até as obras começarem.

De qualquer forma, o Nordeste ainda é um local onde se encontram imóveis com um custo mais atrelado ao valor da construção. O metro quadrado médio de um empreendimento em Natal da Ecocil voltado para as classes B ou C custa cerca de 4.500 reais. Um empreendimento de altíssimo padrão vai sair por 6.500 reais. É uma realidade bem diferente do que se vê em São Paulo e no Rio de Janeiro [onde os lançamentos de alto padrão já chegam facilmente a 15.000 ou 20.000 reais o metro].

Nos últimos três anos, os preços em Natal subiram cerca de 40%. Um empreendimento lançado naquela época por 3.200 reais o metro hoje vale 4.500 reais. Descontada a inflação, dá uma alta real de cerca de 20%. O que ajudou a puxar os preços para cima foi a chegada de diversas grandes incorporadoras do Sudeste, que fizeram ofertas iniciais de ações na década passada e decidiram ter uma atuação nacional.

A Cyrela e a Gafisa fizeram alguns lançamentos em Natal por cerca de 7.000 reais o metro. O apelo dos empreendimentos deles foi começar a cobrar só 20% ou 25% do valor do imóvel até a entrega das chaves. O resto era financiado pelo comprador no banco depois que o apartamento ficava pronto. Hoje em dia, todo mundo trabalha assim em Natal. Mas até então, as parcelas exigidas até as chaves eram maiores.

No ano passado, houve uma reversão dessa tendência de chegada das grandes incorporadoras. A Cyrela é que soou o alarme. [A própria incorporadora anunciou durante 2011 que estava revendo suas parcerias fora do Rio e de São Paulo devido a estouros no orçamento e atrasos nas obras.O pior caso foi em Salvador]. O recente retorno às origens das grandes incorporadoras abriu mais espaço para as empresas locais.

Mas o Rio Grande Norte oferece muitas oportunidades para quem conhece as características do mercado. A Ecocil recebeu duas rodadas de investimento de um fundo de private equity inglês especializado no mercado imobiliário, o Salamanca Group. Os aportes aconteceram no final de 2008, auge da crise imobiliária, e no final do ano passado, quando ainda havia grandes preocupações com a Europa. Só no ano passado, a empresa recebeu uma injeção de capital de 100 milhões de reais.

Agora capitalizada, a Ecocil vai lançar oito empreendimentos com um valor de vendas 500 milhões de reais neste ano. É um pouco mais do que o total de lançamento de 2010 e 2011 somados. Para crescer em Natal, o segredo é não focar no mercado de segunda residência e fazer apartamentos para a população local. Por conhecer melhor o mercado, a empresa consegue trabalhar com custos mais baixos. Há muitas oportunidades de erguer empreendimentos no Nordeste. Já para o investidor, cidades como Natal representam uma oportunidade de comprar imóveis ainda a preços razoáveis.

Os caçadores de terrenos na capital

quinta-feira, novembro 24th, 2011

Os caçadores de terrenos na capital

As aventuras dos corretores que procuram áreas para a construção de novos prédios em São Paulo

Mariana Barros | 16.11.2011

Capa 2243 - Imóveis

Desafio na cidade: não é nada fácil a tarefa daqueles que buscam espaços para a construção de novos edifícios

Ilustração Lucas Pádua com foto de Mario Rodrigues

 

Com a explosão do setor imobiliário na cidade, a quantidade de novos apartamentos e residências surgidos por aqui aumentou 60% entre 2005 e 2007. Desde então, o negócio vem se mantendo sempre acima da marca de 30.000 lançamentos por ano. Em 2011, mesmo com o desaquecimento da economia, devem ser inauguradas por volta de 38.000 unidades, o que dá ao mercado um ritmo impressionante de quatro novos imóveis a cada hora. Mais espantoso que isso é como são encontradas áreas para erguer tantas obras numa metrópole já abarrotada de construções. Boa parte do milagre ocorre devido ao trabalho de um grupo de especialistas que ganha a vida caçando terrenos. Atuam na capital cerca de 200 perdigueiros, como a turma ficou conhecida no meio.

O apelido faz todo o sentido. Os profissionais de faro apurado e disposição quase inabalável vivem em busca de oportunidades em áreas desocupadas e, não raro, demonstram o dom de criar espaços. Enquanto a maioria das pessoas passa por um quarteirão e só vê um punhado de sobrados antigos, por exemplo, eles enxergam a chance de ouro para botar tudo aquilo abaixo e dar lugar a um moderno condomínio. “Sem esse trabalho quase anônimo, muitos projetos não sairiam do papel”, afirma Roberto Coelho da Fonseca, diretor-geral de vendas da imobiliária Coelho da Fonseca. Há seis meses, a empresa criou um departamento exclusivo para abrigar nove especialistas em garimpar áreas para futuros empreendimentos.

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Mario Rodrigues

Alexandre, André e Ariel Frankel (da esquerda para a direita), que comandam a Vitacon, empresa especializada no ramo. Em um voo para Nova York, André e Ariel ofereceram chocolate e puxaram conversa com um empresário sentado ao lado deles. Instantes depois, negociavam uma área pertencente a ele entre as avenidas Paulista e Faria Lima. “Era um bilhete de loteria premiado bem na nossa frente”, diz Ariel

Alexandre, André e Ariel Frankel (da esquerda para a direita), que comandam a Vitacon, empresa especializada no ramo. Em um voo para Nova York, André e Ariel ofereceram chocolate e puxaram conversa com um empresário sentado ao lado deles. Instantes depois, negociavam uma área pertencente a ele entre as avenidas Paulista e Faria Lima. “Era um bilhete de loteria premiado bem na nossa frente”, diz Ariel

Um perdigueiro típico atua praticamente em tempo integral e não desliga a antena nem nos momentos de folga. A maioria trabalha por conta própria, no esquema freelancer. O restante faz parte do quadro de imobiliárias e empreiteiras. “Prefiro ser chamado de chato a perder uma oportunidade”, diz o empresário Alexandre Lafer Frankel, sócio da incorporadora Vitacon, no Jardim Paulistano, e caçador de muitas das áreas que transforma em empreendimentos. Certa vez, ele saiu no meio de um almoço de Dia das Mães para ver um terreno que um dos presentes comentou ter vontade de vender. Dias depois, o martelo acabou batido por cerca de 7 milhões de reais para a venda do imóvel em questão, uma área de 1.200 metros quadrados no Morumbi. “Precisamos estar sempre alertas”, explica ele, que divide o escritório com seus irmãos André e Ariel Frankel.

Numa viagem de avião recente para Nova York, André e Ariel sentaram-se ao lado de um empresário e puxaram conversa oferecendo uma barra de chocolate. No meio do papo, o desconhecido contou que desejava negociar um terreno entre as avenidas Paulista e Faria Lima. “Nossos olhos brilharam”, conta Ariel. Logo eles fecharam o acordo e passaram a área para a frente.

Mario Rodrigues

O corretor Miro Lisoni precisou fechar um acordo com 25 proprietários para comprar suas casas no bairro de Pinheiros e transformar o terreno num prédio comercial. Pelo trabalho, levou de comissão uma bolada: cerca de 450.000 reais

O corretor Miro Lisoni precisou fechar um acordo com 25 proprietários para comprar suas casas no bairro de Pinheiros e transformar o terreno num prédio comercial. Levou de comissão uma bolada: cerca de 450.000 reais

Esse ofício exige visão de gavião e paciência de monge tibetano. Os maiores contratos raramente são concluídos antes de seis meses. Alguns deles podem se arrastar por mais de dois anos, dependendo da complexidade do caso e dos valores envolvidos. Em 2001, um grande rolo apareceu na frente do corretor Miro Lisoni. O episódio envolvia a venda simultânea de 25 casas numa área do bairro de Pinheiros para uma empresa que queria o terreno dos imóveis para construir um prédio comercial. Após muita negociação, finalmente chegaram a um consenso e marcaram a data para a assinatura do contrato com todo o grupo. “Na última hora, uma pessoa rompeu o acordo e pediu mais que o combinado”, lembra Lisoni, que começou a ter pesadelos vendo escorrer pelas mãos uma comissão de cerca de 450.000 reais. Dois dias depois, com os ânimos devidamente acalmados, a turma se reuniu novamente e o compromisso foi selado.

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Sufoco parecido ocorreu com Piero Sevilla, sócio da Adoke, companhia especializada nesse mercado. Em setembro, ele precisou conversar com 108 pessoas para arrematar doze casas no bairro de Santana. No grupo, nada menos que 26 nomes eram da mesma família. “Havia irmãos brigados que não quiseram ficar na mesma sala nem para assinar os papéis”, recorda.

Os alvos mais cobiçados são locais com mais de 2.000 metros quadrados, tamanho mínimo exigido pelas construtoras para erguer um prédio. O custo de uma área dessas, dependendo da localização, pode ficar em torno de 10 milhões de reais, e o vendedor recebe uma comissão de 3% a 5%, ou seja, entra no seu bolso algo entre 300.000 e 500.000 reais. A bolada faz valer a pena todo o esforço gasto na longa operação de convencimento dos proprietários. “Atuar nesse ramo está cada vez mais complexo, pois tudo o que era fácil já foi comercializado”, lamenta o corretor Christian Jacques Magalhães.

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Em 2004, ele largou uma carreira no mercado financeiro e virou caçador. Um dos episódios mais frustrantes do novo trabalho ocorreu quando estava fechando o negócio de um terreno no centro. “Na fase final das tratativas, descobrimos indícios de um lençol freático no lugar”, conta. Foram necessários sete meses até um laudo constatar que o depósito estava seco e não comprometia o espaço, tempo suficiente para os investidores desistirem da compra. “Minha rotina ficou ainda mais estressante”, diz Magalhães.

Fernando Moraes

Renato Siqueira trabalhava no escritório Ricardo Julião quando viabilizou um negócio num dos terrenos mais cobiçados da cidade, em plena Avenida Paulista. A área, pertencente a uma ordem de freiras, só poderia ser vendida com a autorização dos religiosos. A saída foi alugá-la: um shopping popular em construção por ali deve ser aberto em 2012

Renato Siqueira trabalhava no escritório Ricardo Julião quando viabilizou um negócio num dos terrenos mais cobiçados da cidade, em plena Avenida Paulista. A área, pertencente a uma ordem de freiras, só poderia ser vendida com a autorização dos religiosos. A saída foi alugá-la: um shopping popular em construção por ali deve ser aberto em 2012

Apesar das dificuldades, nada parece impossível para esses Sherlocks paulistanos. Exemplo disso foi a saga enfrentada pelo especialista Renato Siqueira, que atuava no escritório de arquitetura Ricardo Julião quando recebeu, em setembro do ano passado, a incumbência de resolver um problema difícil: um cliente queria erguer um shopping popular na Avenida Paulista, numa propriedade entre a Alameda Ministro Rocha Azevedo e a Rua Padre João Manuel. Seria perfeito, não fosse o fato de o terreno em questão pertencer a uma ordem de freiras.

No local, havia apenas uma residência, que servira de escritório até poucos meses antes. Apesar do estado de abandono, nada poderia ser feito ali sem o aval de curadores de fundações religiosas, num processo que corria o risco de se estender por anos. “Para agilizar o acerto, combinamos alugar a área por uma década”, relata Siqueira. Resolvido o imbróglio, as obras do novo centro de compras começaram quase imediatamente e a previsão é que ele seja inaugurado em 2012. Em outra ocasião, o perdigueiro freelancer Sílvio Galvão Pereira viajou diversas vezes a Itanhaém, no Litoral Sul, para ajudar uma proprietária a conseguir o divórcio e assim dar continuidade à venda de sua casa na capital. “Felizmente, deu certo”, diz ele. “O problema é gastar saliva e sola de sapato e ficar sem um tostão.”

Fernando Moraes

Walter Torre Junior, da WTorre, arrematou por 400 milhões de reais em 2006 um dos maiores micos da capital, o esqueleto abandonado do prédio da Eletropaulo na Marginal Pinheiros. Depois de finalizar o edifício, passou o negócio adiante por 1 bilhão de reais

Walter Torre Junior, da WTorre, arrematou por 400 milhões de reais em 2006 um dos maiores micos da capital, o esqueleto abandonado do prédio da Eletropaulo na Marginal Pinheiros. Depois de finalizar o edifício, passou o negócio adiante por 1 bilhão de reais

Enquanto vivem procurando tesouros escondidos por aí, os especialistas sonham com as pérolas mais cobiçadas da cidade — no caso, espaços enormes e com ótima localização, cujos proprietários resistem há anos a uma saraivada de ofertas. Fazem parte da lista propriedades como a área de 24.000 metros quadrados na esquina das ruas Augusta e Caio Prado, no centro. Entre 1907 e 1967, funcionou ali o Colégio Des Oiseaux, tradicional escola de ensino exclusiva para mulheres. Segundo estimativas do mercado, os dois lotes que compõem a propriedade valem hoje 84 milhões de reais.

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A exemplo das ações da bolsa de valores, as cotações são voláteis e podem mudar de uma hora para outra. Desprezadas durante um longo período, as áreas vizinhas à Marginal Pinheiros tiveram seu valor elevado nos últimos anos. O engenheiro Walter Torre Junior, proprietário da construtora WTorre, comprou em 2006 aquele que era considerado um dos maiores micos da cidade, o terreno onde estava o esqueleto da Eletropaulo, quase na esquina da via expressa com a Avenida Presidente Juscelino Kubitschek. Gastou, na ocasião, 400 milhões de reais. Completada a construção, vendeu-a dois anos depois ao Santander por 1 bilhão de reais. O banco fez dela a sua nova sede. “Namorei o endereço por anos, pois sabia que ali havia uma oportunidade”, revela o empresário, que ergueu ao lado outra torre de escritórios e o futuro shopping JK Iguatemi. “Ninguém acreditava na minha aposta.”

Fernando Moraes

A cada mês, a equipe de Elizabeth Pascotto, da Coelho da Fonseca, fecha a venda de um grande lote na cidade. O mais recente deles fica próximo ao cruzamento das avenidas Jornalista Roberto Marinho e Washington Luís: “O dono ia vendê-lo às 16 horas para outra imobiliária. Às 12 horas do mesmo dia eu estava tentando convencê-lo a fazer negócio conosco. Deu certo”, comemora

A cada mês, a equipe de Elizabeth Pascotto, da Coelho da Fonseca, fecha a venda de um grande lote na cidade. O mais recente fica próximo ao cruzamento das avenidas Jornalista Roberto Marinho e Washington Luís. “O dono ia vendê-lo às 16 horas para outra imobiliária. Às 12 horas do mesmo dia eu estava tentando convencê-lo a fazer negócio conosco. Deu certo”

Na rotina dos caçadores, a descoberta de uma pepita no mar imobiliário da cidade, muitas vezes, é o primeiro capítulo de uma novela. Grande parte da energia dos profissionais acaba sendo direcionada para os passos seguintes do processo, que envolvem o convencimento do proprietário sobre a conveniência da venda. O executivo Otávio Zarvos, da incorporadora Idea!Zarvos, perdeu a conta dos cafés que tomou com a dona de uma casa que ficava bem no meio de um terreno onde pretendia construir, na Vila Madalena. “Ela pedia um valor altíssimo, pois achava que não tínhamos alternativa”, afirma Zarvos. Quando viu que o empreendimento sairia de qualquer maneira, a proprietária resolveu aceitar a oferta inicial. Tarde demais. A casa continua no mesmo lugar e atualmente está cercada por todos os lados pelo edifício da Zarvos. “Espero até três meses para a pessoa se decidir. Passado esse período, começamos a desenvolver o projeto”, diz o empresário.

Fernando Moraes

A dona de casa Francisca da Conceição negociou a residência no Brooklin onde mora com o marido, que é motorista. “Com parte do dinheiro, compramos um caminhão para ele. Agora, vamos procurar um espaço melhor para a família”

A dona de casa Francisca da Conceição negociou a residência no Brooklin onde mora com o marido, que é motorista. “Com parte do dinheiro, compramos um caminhão para ele. Agora, vamos procurar um espaço melhor para a família”

À frente do departamento da Coelho da Fonseca criado para buscar terrenos, a corretora Elizabeth Pascotto já encaminhou 25 áreas a construtoras e aprendeu a lidar com ânimos acirrados. “O primeiro passo é mostrar respeito pelo lugar onde a pessoa mora e, em seguida, aguçar seu desejo de mudar”, conta. Foi assim que convenceu a dona de casa Francisca da Conceição a vender recentemente sua residência no Brooklin. Arredia no primeiro contato, ela foi cedendo até chegar a um entendimento. O dinheiro da venda serviu para comprar um caminhão para o marido, que trabalha como motorista, e procurar um imóvel melhor para a família. Na Vila Mariana, uma negociação da Lindencorp quase emperrou por causa de um inquilino, o Abrigo Vovó Ilza, responsável por mães adolescentes. Sem poder ir para outro bairro, o que prejudicaria o trabalho da entidade, a ONG recorreu à incorporadora para achar uma nova sede. Deu certo: está de malas prontas e se mudará neste mês para alguns quarteirões adiante.

Fernando Moraes

Maria de Fátima Alarcon, coordenadora de ONG na Vila Mariana: ela recorreu à incorporadora para que a entidade pudesse continuar atuando no mesmo bairro depois da venda do terreno

Maria de Fátima Alarcon, coordenadora de ONG na Vila Mariana: ela recorreu à incorporadora para que a entidade pudesse continuar atuando no mesmo bairro depois da venda do terreno

BAIRROS NA MIRA
Regiões para onde os empreendedores têm esticado os olhos

VILA CARIOCA
O bairro do distrito do Ipiranga ainda guarda alguns grandes galpões próximos à Avenida Presidente Wilson

BUTANTÃ
A procura por unidades comerciais nas imediações da Avenida Vital Brasil pode transformar a via em um centro semelhante à Avenida Engenheiro Luís Carlos Berrini, no Brooklin

VILA MARIANA
O sobradinhos que marcam a paisagem do bairro estão dando lugar a grandes conjuntos residenciais

 

 

  • As áreas mais cobiçadas da cidade

    PLAYCENTER O parque de diversões é inquilino de uma área que há mais de dez anos é sondada pelo mercado. ÁREA — 85.000 metros quadrados VALOR ESTIMADO — 212 milhões de reais   ANTIGO COLÉGIO DES OISEAUX (foto: Mario Rodrigues) Os dois lotes onde havia o tradicional colégio feminino administrado pelas Cônegas de Santo Agostinho ficam entre as ruas Augusta e Caio Prado.

Pão de Açúcar lança empreendimento junto com Cyrella

sexta-feira, setembro 23rd, 2011

Rodrigo Petry, da Agência Estado

  

A empresa já conta com um empreendimento na região do Jaguaré, em São Paulo, onde foram erguidas seis torres residenciais

São Paulo - O Grupo Pão de Açúcar lança nesta semana o primeiro empreendimento imobiliário em parceria com uma incorporadora. A construção do Thera, uma torre com apartamentos residenciais, escritórios e um hotel, e ainda com uma loja de proximidade e uma drogaria da bandeira Extra na parte inferior do empreendimento, será de responsabilidade da Cyrella, em um terreno da varejista, no bairro do Butantã, em São Paulo.

“É uma estratégia para trazer um maior retorno ao ativo”, disse o vice-presidente de relações corporativas do Pão de Açúcar, Hugo Bethlem, após participar, em São Paulo, de evento sobre comunicação empresarial no varejo realizado pelo Centro de Excelência em Varejo da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Bethlem informou que a rentabilidade mínima do empreendimento é estimada em 20% para a companhia, e que virá da venda dos imóveis. “É uma permuta. O empreendedor constrói as unidades, no terreno do Pão de Açúcar, nós recebemos o equivalente a 20% do empreendimento e vendemos”, explicou.

Outros dois negócios estão em planejamento para a venda, ainda em 2011, em São Paulo. Um em Guarulhos, em parceria com a Helbor, em um terreno onde já se encontra um hipermercado Extra, e outro em Santo André, em um terreno com um supermercado Pão de Açúcar, em sociedade com a RFM Construtora.

A empresa já conta com um empreendimento na região do Jaguaré, em São Paulo, onde foram erguidas seis torres residenciais. “Todos esses projetos levam ao caminho de alavancar mais as vendas dos hipermercados”, disse. Segundo ele, outra vantagem é a divisão dos custos de construção. “Além de ampliar o retorno sobre o capital empregado, temos os moradores dos prédios como potenciais clientes”, destacou.

Bethlem evitou dar estimativas para os próximos anos de novos empreendimentos em razão das diferentes velocidades dos ciclos de construção do varejo e do ramo imobiliário. “Nós construímos um hipermercado em 120, 150, 180 dias, mas os imóveis levam entre 3 e 4 anos para ficarem prontos”, explicou. A área de desenvolvimento imobiliário do Pão de Açúcar é de responsabilidade da subsidiária GPA Malls & Properties, que conta com aproximadamente 1 milhão de metros quadrados de área com potencial construtivo.